terça-feira, 19 de maio de 2009

Infantes sonhos encerrados


Os dias vão passando, lustrando como um pano o chão do tempo
Alguns que vão seguindo, sorrindo não vêm os que foram chorando
Recortes na lembrança, crianças que saltam sem medo
Elas vivem em segredo, dentro do mundo que dorme cedo
Desvendam enredos com fantasias travestidas em seus brinquedos
Ilustres que ilustram os sonhos despertados
Dissipam as trevas dos receios propagados
Em peitos encerradas, cantam ainda que sussurrando
Sempre vivas, embora escondidas, vão seguindo
Dão passagem aos raios luminosos que chegam ao cristalino
Límpido é o rio que corre em meio as suas florestas
Entre as frestas das copas o céu se mostra
E vai o mundo passando em suas costas
E vem a vida, que desfila rente ao seu sorriso
Na eterna infância, um antigo amigo
Eis na roda do tempo seu seguro abrigo.

sábado, 2 de maio de 2009

Uma bela princesa

É comum, embora medíocre, o hábito de menosprezar o que não temos e gostaríamos de ter. Mostra-se como o recurso mais fácil, de modo geral, desdenhar do que não se possui, alegando-se um total desinteresse em obtê-lo. Busca-se, assim, disfarçar a insatisfação presente em nosso íntimo. É, sem dúvidas, uma forma rústica e precária de manter a nossa consciência forçosamente “satisfeita”, seguida daquelas frases que se fazem presentes até mesmo no discurso de infantes: “Também, eu não queria”; “Nem ligo mesmo para isso”;...

Ao analisar as falas cotidianas, podemos observar este fenômeno tão conhecido e propagado, facilmente identificado, mesmo que algumas vezes travestido. Haverá, acaso, aquele que não conheça a máxima da sabedoria popular acerca do assunto que tratamos por hora: “Quem desdenha quer comprar”?

Há quem desfaça da realeza, enquanto tudo o que mais queria era ser como uma princesa... Tal atitude não eleva, não provoca mudanças, não nos impele à luta. É uma tática falha e derrotista que só acentua a frustração que é negada por nossa consciência. Tanto melhor nos é admitir o quanto presente e impregnante é o nosso objeto de desejo. “O sol nasce sobre o justo e o injusto”, o dia está para todos e cada um traz em si talentos tão singulares que figuram instrumentos de ação, os quais carecem apenas de uma mente capaz de boas estratégias.

Então, por que não mudar o comportamento diante de tais fatos? A eficácia da negação é de caráter duvidoso e ainda configura um risco eminente de exposição ao ridículo. Há tanta beleza em nós, uma beleza que é vida, esperança, força... Não há razão para a resignação perante as “intempéries” da vida, é preciso experimentar como crianças, "pelo puro prazer de brincar" e criar as possibilidades de ser. A proposta é audaciosa, admito, pois são deveras profundas as raízes comportamentais de nossa abnegação. Contudo, reconhecer nossos mecanismos internos poderá ser um importante passo para uma ação mais verdadeira e comprometida com os resultados. É preciso conhecer-se, encarar o espelho da nossa consciência de frente, sem medos, sem o receio de se deparar com os defeitos e limitações.

Diferentes maneiras de atuar podem ser empreendidas a partir da tomada de consciência. A riqueza das ações dirá muito acerca da natureza da alma que se desvela. Haverá aquela disposta a ocupar o lugar destinado à realeza, movida por uma ambição mesquinha, acreditando, tolamente, que ao sentar-se no torno, tornar-se-á nobre. Mas eu prefiro aquelas que se mostrarão autênticas princesas, ao erguer seus castelos mágicos, sejam eles de areia, de palavras assentadas uma a uma numa harmonia poética ou, ainda, feitos a partir de “cinco ou seis retas” num papel... Encantam-me as almas que criam universos, que constroem caminhos, que são o que querem ser... Elas estão sempre a dizer ao mundo: “Há lugar para todos”. Estas são as verdadeiras “almas-princesas”, de indiscutível nobreza, de infindável beleza.

Clara (Casimiro de Abreu)


Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!