sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Imperscrutável Oceano
Alguém me falou que sou bela, e triste fiquei
Assustei-me com olhos vazados de quem me olhou
Não viu que o ser é um rio, é mais que um riso, comporta uma dor
Perdeu o sentido partido do canto gemido em forma de flor
Brotando num canto sombrio, oculto e calado no fundo de mim
Naquele profundo sem fundo, cercado sem muros, que diz quem eu sou.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Onde não sei
Morador desconhecido e inteligível
Atrevido, forasteiro gozador
Poeta encantado, vagabundo,
Insondável profundo, mero espectador.
Recusa-se a andar segundo as regras,
Não oferece guerra ou trégua, nem ódio, nem amor.
Indiferente, sente o esmorecer de sua mente
Pela falta da alegria e ausência da dor.
E rima imprudente, displicente,
Negando a vivência da coragem e do temor.
Descansa todo dia,
Agonia infinita, do silencio gotejante do labor.
Atravessa ladeando a saudade,
Na dispensa da abulia, zombeteiro da paixão.
Gargalha da incerteza e da clareza, da feiúra e da beleza,
E do medo da solidão.
Abandonado, desconcertado, esquecido,
Pobre infame sonhador
Nem sabe que procura, inocente,
Completar-se, onde não sente,
Com o maciço e puro amor.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Remanso da Indiferença

Imolado em sua bondade,
Entre escombros, a coragem
De quem ousa viver
Escapam-lhe as cores
Sem muitos amores,
Num eterno sofrer
Entre choro e alegria,
A mesma agonia,
O mesmo querer
Exprimir-se não pode,
Diante das dores,
Que encobrem seu ser
E quem é que o vê?
Mais que um padecer, um menino
E quem é que o vê?
Poderá vislumbrar seu sorriso?
No céu infinito,
Ergue-se monolítico
Na esperança de ter
Cargueiro da saudade
Intenta a liberdade
Que nunca se viu
Brotam ervas em seus campos,
Regadas com a lágrima
Que nunca caiu
E assim não se sabe
Para onde, suplicante, aquele olhar seguiu
E quem é que o viu?
Mais que um caminhar, um caminho
E quem é que o viu?
Quem pode transformar seu destino?
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Miragens Miríades

Desde menina, muito pequenina
Aquela de castanhos pensamentos
E ruivos sonhos dourados
Debaixo dos indecisos fios de cabelo
Sorriso lua crescente
Peito lua cheia
Serena sereia secreta
Poetiza pitoresca
Cantorias mal contadas de conto-canção
Sol, vento, sabão-em-pó e só
Tudo é vida, disse a madre
Sê perfeita, disse o padre
Mas o governo ainda gosta do trem, porque o trem anda na linha
Abuela, abre la puerta
Ladeira acima, ladeira abaixo
A princesa tem os pés no chão, irmão
Mas é o vento
Sempre o vento
Que leva seus pensamentos para o alto
Como bolhas de sabão
Há fogo na floresta
Chamas, labaredas, mas está tudo em paz, meu rapaz
Corre e leva, o secreto e sofrido amor que não há
Amar é a maré
Barco vem, barco vai
Inventa “com cinco ou seis retas”
Cria, completa, imagina
Voa com a folha pensando ter asas na ventania
É pipa, é poupa, é sumo
Um caminho sem rumo
No meio do mundo
Aquela de castanhos pensamentos
E ruivos sonhos dourados
Debaixo dos indecisos fios de cabelo
Sorriso lua crescente
Peito lua cheia
Serena sereia secreta
Poetiza pitoresca
Cantorias mal contadas de conto-canção
Sol, vento, sabão-em-pó e só
Tudo é vida, disse a madre
Sê perfeita, disse o padre
Mas o governo ainda gosta do trem, porque o trem anda na linha
Abuela, abre la puerta
Ladeira acima, ladeira abaixo
A princesa tem os pés no chão, irmão
Mas é o vento
Sempre o vento
Que leva seus pensamentos para o alto
Como bolhas de sabão
Há fogo na floresta
Chamas, labaredas, mas está tudo em paz, meu rapaz
Corre e leva, o secreto e sofrido amor que não há
Amar é a maré
Barco vem, barco vai
Inventa “com cinco ou seis retas”
Cria, completa, imagina
Voa com a folha pensando ter asas na ventania
É pipa, é poupa, é sumo
Um caminho sem rumo
No meio do mundo
terça-feira, 19 de maio de 2009
Infantes sonhos encerrados
Os dias vão passando, lustrando como um pano o chão do tempo
Alguns que vão seguindo, sorrindo não vêm os que foram chorando
Recortes na lembrança, crianças que saltam sem medo
Elas vivem em segredo, dentro do mundo que dorme cedo
Desvendam enredos com fantasias travestidas em seus brinquedos
Ilustres que ilustram os sonhos despertados
Dissipam as trevas dos receios propagados
Em peitos encerradas, cantam ainda que sussurrando
Sempre vivas, embora escondidas, vão seguindo
Dão passagem aos raios luminosos que chegam ao cristalino
Límpido é o rio que corre em meio as suas florestas
Entre as frestas das copas o céu se mostra
E vai o mundo passando em suas costas
E vem a vida, que desfila rente ao seu sorriso
Na eterna infância, um antigo amigo
Eis na roda do tempo seu seguro abrigo.
Alguns que vão seguindo, sorrindo não vêm os que foram chorando
Recortes na lembrança, crianças que saltam sem medo
Elas vivem em segredo, dentro do mundo que dorme cedo
Desvendam enredos com fantasias travestidas em seus brinquedos
Ilustres que ilustram os sonhos despertados
Dissipam as trevas dos receios propagados
Em peitos encerradas, cantam ainda que sussurrando
Sempre vivas, embora escondidas, vão seguindo
Dão passagem aos raios luminosos que chegam ao cristalino
Límpido é o rio que corre em meio as suas florestas
Entre as frestas das copas o céu se mostra
E vai o mundo passando em suas costas
E vem a vida, que desfila rente ao seu sorriso
Na eterna infância, um antigo amigo
Eis na roda do tempo seu seguro abrigo.
sábado, 2 de maio de 2009
Uma bela princesa
É comum, embora medíocre, o hábito de menosprezar o que não temos e gostaríamos de ter. Mostra-se como o recurso mais fácil, de modo geral, desdenhar do que não se possui, alegando-se um total desinteresse em obtê-lo. Busca-se, assim, disfarçar a insatisfação presente em nosso íntimo. É, sem dúvidas, uma forma rústica e precária de manter a nossa consciência forçosamente “satisfeita”, seguida daquelas frases que se fazem presentes até mesmo no discurso de infantes: “Também, eu não queria”; “Nem ligo mesmo para isso”;...Ao analisar as falas cotidianas, podemos observar este fenômeno tão conhecido e propagado, facilmente identificado, mesmo que algumas vezes travestido. Haverá, acaso, aquele que não conheça a máxima da sabedoria popular acerca do assunto que tratamos por hora: “Quem desdenha quer comprar”?
Há quem desfaça da realeza, enquanto tudo o que mais queria era ser como uma princesa... Tal atitude não eleva, não provoca mudanças, não nos impele à luta. É uma tática falha e derrotista que só acentua a frustração que é negada por nossa consciência. Tanto melhor nos é admitir o quanto presente e impregnante é o nosso objeto de desejo. “O sol nasce sobre o justo e o injusto”, o dia está para todos e cada um traz em si talentos tão singulares que figuram instrumentos de ação, os quais carecem apenas de uma mente capaz de boas estratégias.
Então, por que não mudar o comportamento diante de tais fatos? A eficácia da negação é de caráter duvidoso e ainda configura um risco eminente de exposição ao ridículo. Há tanta beleza em nós, uma beleza que é vida, esperança, força... Não há razão para a resignação perante as “intempéries” da vida, é preciso experimentar como crianças, "pelo puro prazer de brincar" e criar as possibilidades de ser. A proposta é audaciosa, admito, pois são deveras profundas as raízes comportamentais de nossa abnegação. Contudo, reconhecer nossos mecanismos internos poderá ser um importante passo para uma ação mais verdadeira e comprometida com os resultados. É preciso conhecer-se, encarar o espelho da nossa consciência de frente, sem medos, sem o receio de se deparar com os defeitos e limitações.
Diferentes maneiras de atuar podem ser empreendidas a partir da tomada de consciência. A riqueza das ações dirá muito acerca da natureza da alma que se desvela. Haverá aquela disposta a ocupar o lugar destinado à realeza, movida por uma ambição mesquinha, acreditando, tolamente, que ao sentar-se no torno, tornar-se-á nobre. Mas eu prefiro aquelas que se mostrarão autênticas princesas, ao erguer seus castelos mágicos, sejam eles de areia, de palavras assentadas uma a uma numa harmonia poética ou, ainda, feitos a partir de “cinco ou seis retas” num papel... Encantam-me as almas que criam universos, que constroem caminhos, que são o que querem ser... Elas estão sempre a dizer ao mundo: “Há lugar para todos”. Estas são as verdadeiras “almas-princesas”, de indiscutível nobreza, de infindável beleza.
Clara (Casimiro de Abreu)

Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!
A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!
A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!
Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!
A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!
A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!
A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!
Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!
A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!
terça-feira, 21 de abril de 2009
Vida em cores

Há dias em que acordo sem hora para dormir, sem planos, sem sonhos, sem rumo
Em dias como este nem sei se acordada vivo ou se vivendo durmo
Nas frases “devanecentes”: licenças poéticas e muita preguiça das vírgulas e regras
Em dias como este nem sei se acordada vivo ou se vivendo durmo
Nas frases “devanecentes”: licenças poéticas e muita preguiça das vírgulas e regras
Dias tediosos e obscurecidos por nuvens que tornam o horizonte nebuloso
Fazem-me sentir a falta das cores
Logo invento a alegria
E a paixão aflora como uma flor no deserto
Em busca de vida, nos livros percorro caminhos de muitos pinceis e tintas
E lá vem Miró, com seu jardim insano e colorido, como um show pirotécnico de olhos e bocas que flutuam
E a graça há de pairar em tristes olhos que buscam Renoir
Bailarinas rosadas parecem dançar, é Degas pedindo que eu cante para o espetáculo continuar
Corro no campo de trigo e ciprestes, ao longe avisto os girassóis
O semeador está a trabalhar
Van Gogh me convida para uma noite estrelada
Mas antes do entardecer, encontro-me com Monet
Traz-me as flores que perfumam meus sonhos, desses que brotam tão puros e verdes
A poesia invade meu peito com rimas que cantam como pássaros que passaram
Ah, quanto amor por todo lugar, acima e embaixo das densas nuvens e do extenso mar
Encantada com a cena delicada e simples, desejo o beijo de Klimt
Toda a confusão do silêncio que pré-existe, parece discursar perante as curvas e retas de Kandinsky
A pesada capa do livro fecha-se
No céu, entre as nuvens, a lua sorri para mim
Chegou a hora de dormir
A alcova dos sonhos me espera
Chegou a hora de dormir
A alcova dos sonhos me espera
A vida é realmente bela.
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