É comum, embora medíocre, o hábito de menosprezar o que não temos e gostaríamos de ter. Mostra-se como o recurso mais fácil, de modo geral, desdenhar do que não se possui, alegando-se um total desinteresse em obtê-lo. Busca-se, assim, disfarçar a insatisfação presente em nosso íntimo. É, sem dúvidas, uma forma rústica e precária de manter a nossa consciência forçosamente “satisfeita”, seguida daquelas frases que se fazem presentes até mesmo no discurso de infantes: “Também, eu não queria”; “Nem ligo mesmo para isso”;...Ao analisar as falas cotidianas, podemos observar este fenômeno tão conhecido e propagado, facilmente identificado, mesmo que algumas vezes travestido. Haverá, acaso, aquele que não conheça a máxima da sabedoria popular acerca do assunto que tratamos por hora: “Quem desdenha quer comprar”?
Há quem desfaça da realeza, enquanto tudo o que mais queria era ser como uma princesa... Tal atitude não eleva, não provoca mudanças, não nos impele à luta. É uma tática falha e derrotista que só acentua a frustração que é negada por nossa consciência. Tanto melhor nos é admitir o quanto presente e impregnante é o nosso objeto de desejo. “O sol nasce sobre o justo e o injusto”, o dia está para todos e cada um traz em si talentos tão singulares que figuram instrumentos de ação, os quais carecem apenas de uma mente capaz de boas estratégias.
Então, por que não mudar o comportamento diante de tais fatos? A eficácia da negação é de caráter duvidoso e ainda configura um risco eminente de exposição ao ridículo. Há tanta beleza em nós, uma beleza que é vida, esperança, força... Não há razão para a resignação perante as “intempéries” da vida, é preciso experimentar como crianças, "pelo puro prazer de brincar" e criar as possibilidades de ser. A proposta é audaciosa, admito, pois são deveras profundas as raízes comportamentais de nossa abnegação. Contudo, reconhecer nossos mecanismos internos poderá ser um importante passo para uma ação mais verdadeira e comprometida com os resultados. É preciso conhecer-se, encarar o espelho da nossa consciência de frente, sem medos, sem o receio de se deparar com os defeitos e limitações.
Diferentes maneiras de atuar podem ser empreendidas a partir da tomada de consciência. A riqueza das ações dirá muito acerca da natureza da alma que se desvela. Haverá aquela disposta a ocupar o lugar destinado à realeza, movida por uma ambição mesquinha, acreditando, tolamente, que ao sentar-se no torno, tornar-se-á nobre. Mas eu prefiro aquelas que se mostrarão autênticas princesas, ao erguer seus castelos mágicos, sejam eles de areia, de palavras assentadas uma a uma numa harmonia poética ou, ainda, feitos a partir de “cinco ou seis retas” num papel... Encantam-me as almas que criam universos, que constroem caminhos, que são o que querem ser... Elas estão sempre a dizer ao mundo: “Há lugar para todos”. Estas são as verdadeiras “almas-princesas”, de indiscutível nobreza, de infindável beleza.
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